Vagalumessencia

Por Eliane Oliveira - 03/04/2021


No escuro, um meio-ponto de luz é a coisa mais bonita. A coisa é bonita por causa da escuridão pontuada pela luz. Se é tudo só luz, a luz é tudo o que há. Fica monossilábico e não dialógico. Mas, se há escuridão, qualquer ponto de luz é a coisa mais bonita. A escuridão fica calma, a luz fica amena. Eu me atraio por essa beleza. E vou busca-la, pari-la, dar-lhe à luz. Parece que imito as memórias mais antigas da minha alma, as da minha história e as da história do mundo. Arquétipos. Tipos ancestrais. Marcas atemporais. Como são os vagalumes. Não os vejo mais. Ficaram raros. Mas, quando criança, eu os via. A encarnação do mistério da luz piscando na escuridão. Manifestação da eterna delicadeza do acender e do apagar de todas as coisas. Vagalumes, velas, estrelas, rituais religiosos, fogueiras, lamparinas. Brilhos. Lusco-fusco. Crepúsculo. Alvorecer. O sagrado encontro entre a luz e a treva, e tudo o que isso simbolicamente representa, e tudo o que isso nos impõe na realidade do mundo. A vida e a morte. O começo e o fim cantado em dueto. Beleza é a palavra.



Eu crio luminárias, e, até há pouco, não entendia por que cargas d’água isso foi acontecer comigo. Foi uma possessão, como são as artes na minha vida. Um destino. O copo de água quando estou com sede. O arroz com feijão quando estou com fome. Necessidade fisiológica. Necessidade ontológica. Necessidade que pertence à alma. Mais forte do que eu mesma. Sabia que era da conta do inconsciente, mas não me estava claro como isso me tomava. Despertei pelo interesse de criar luminárias quando, um dia, em Santa Teresa, na casa do Alan, conheci uma artesanal que nunca mais parei de querê-la. Hipnose profunda. Comprei tinta, acetato, fio e outros materiais, mas levei alguns anos ruminando como projetaria uma daquelas. Comigo é bem assim. Crio bovinamente. E, assim, passado um tempo de decantação, desandei a construí-las. Não foi uma. Foram umas 10 de uma só vez. Sem nenhum objetivo nem meta nem motivo algum. Apenas uma profunda necessidade de vê-las acessas junto da escuridão. Era uma reexperimentação da "vagalumessência", que, na minha história, tomou forma de vida e morte em muitas passagens desde cedo. Podia atualizá-las, ritualizá-las e apascentá-las através da beleza. Beleza é a palavra. No escuro, um meio-ponto de luz é a coisa mais bonita. Tipo samba que, harmonizando tristeza e alegria numa espécie de divã popular, batuca, animado, um refrão cheio de lalaiá. Juntar luz às trevas quando a luz parece finda era poético, curativo, religioso e nutritivo. Templo. Oração. Contemplação. Acolhimento. Noutro dia, uma aluna, chegando ao Uddiyana à noite para retornar sua prática presencial após um tempo afastada, me disse emocionada: "Ao ver essas luzes, já me senti abraçada".


Páscoa, para quem não é cristão, pode ser vista como o desejo eterno da alma pela "vagalumessencia". Não é só a luz. Não é só a escuridão. Páscoa significa "passagem". É o meio do caminho, é a ponte, a travessia, onde a escuridão da morte é pontuada pela luz da vida, na simbologia da ressurreição de Jesus Cristo, lembrando-nos da experiência humana, que é sempre como a aurora do dia nascendo enquanto a noite ainda persiste. Boa Páscoa para tod@s!




Semana Santa, sábado de aleluia, abril/2021


Ouça a Música Paixão e fé de Milton Nascimento, Tavinho Moura e Fernando Brant

Voz profa. Eliane Oliveira e violão Rinaldo Oliveira.

Acesse: https://fb.watch/4CNs53T7qG/ ou https://youtu.be/LLOX9yQryrc