Textos e Reflexões

Yoga não é crossfit

(Por Eliane Oliveira - 16/03/22)

 

Fotos de alguém exibindo posturas acrobáticas de yoga no Instagram chamam a atenção, ainda mais se é em cenário bucólico, com paisagens de mar ou montanha. Estratégico. Estamos em tempos das propagandas pelas imagens onde a exposição é a alma do negócio. Posturas de yoga são bonitas, mas nem todos que as fazem estão praticando yoga. Se fosse assim, os ginastas olímpicos seriam necessariamente iluminados. Fique atento! Yoga não é crossfit. Yoga não é ásana, yoga não é performance nem contorcionismo nem malhação. Mas, apesar disso, tenho recebido mensagens de pessoas procurando "yoga para suar", desejando abordagens em que ásanas são usados para inflar músculos, provocar muito calor e alteração da mente, e "relaxar". Cuidado! Pode ser perigoso. Tenho dúvidas se essas práticas levarão você ao Yoga, se é isso que você está buscando.

 

Yoga é um complexo de disciplinas que conduzem o praticante à consciência da sua plenitude. A isso só se chega com a mobilização e expansão progressiva da energia sutil pelos chakras. Precisa de acompanhamento individualizado de um professor que, por sua vez, esteja no mesmo caminho de expansão e transformação de si mesmo. Esse aprendizado precisa de tempo. Precisa de calma. É para a vida toda. Yogasana é um dos meios para yoga. Mas, não é a finalidade, não é o objetivo. Yogasanas, para levarem ao Yoga, precisam estar inseridas e concatenadas em séries específicas que produzam energização dos chakras, e não necessariamente suor, muito menos exaustão ou a uma viagem mística. Alguém muito flexível, magro, que tem um papo suave "namastê-gratiluz", que acende incenso na aula, de sorriso fácil e fala mansa não necessariamente é um yogue. Desconfie dessas estrelas e de suas exposições. Você não precisa ser alongado para praticar yoga. Você não precisa ser magro para praticar yoga. Você não precisa já conhecer yoga para praticar yoga. Mas, você precisa ser simples. Ter calma e ser paciente no seu processo de autoconhecimento. Calma, paciência e persistência. Não há lugar nenhum a ser chegar, a não ser aqui e agora. O caminho é longo. Baixar as defesas do seu ego. Abrir-se para a sua transformação. O olhar da plenitude trará contentamento e superará sua tendência em enfatizar a falta.

Quer praticar Yoga? Venha nos conhecer. Estamos no Largo do Machado, 54/1002 - perto do metrô. Inicie sua prática: 991431022 (profa. Eliane Oliveira).

"​Pedra dura em água mole tanto bate até que flui"​

por profa. Eliane Oliveira

Se quiser chegar ali, você tem que seguir uma trilha já meio perdida no mato fechando. É bom ir pisando forte para afastar as serpentes que passeiam fagueiras no caminho. Vou seguindo às 9 da manhã, com o sol no céu e frio na sombra. Serra. Cheiro bom. Nenhum movimento humano. Eu sozinha, além, obviamente, do curupira, dos sacis e das fadas. E do rio. Com reverência, peço licença aos mestres da floresta pra entrar em sua casa.

(Pocinho é o nome “oculto” da cachoeira. “Oculto” porque se você pergunta para alguém da cidade onde ela fica ninguém conhece. Não vão lhe dizer. Existe para uns. Pocinho faz referência à outra batizada no aumentativo – Poção -, a que os turistas chegam facilmente porque são conduzidos por placas indicando a entrada: “Aqui, Poção”. Os moradores da Vila de São Miguel da Maromba, em Visconde de Mauá, sob a luz do arcanjo, conduzem a atenção dos forasteiros para algumas cachoeiras, deixando secretos os portais para os recantos mais virgens. Guardam sagrado).

Sento-me naquela pedra em que sempre me sento quando venho. Todo o ano venho. Pelo menos uma vez. Fico quieta. Faço nada. Observo o rio. As águas passam. Abraçam as pedras sem senti-las como obstáculos. Deslizam sobre e entre elas. Simplesmente. Se não encontram espaço, pulam em cascata ou infiltram-se na terra. Humildes. Lá vem uma folha escorregando pela queda da cachoeira. Entregue. Confiante. Um galho. Uma flor. Tudo corre fácil. Não há esforço. Só corre. Reparo no fluxo. Fluxo é quando flui. Penso na vida. Penso se eu fluo como o rio. Não, não fluo sempre. Mais vezes, quero controlar o movimento natural das coisas. Oponho-me à correnteza, insisto no que não corre. “Faço esforço” para que a coisa aconteça. Tento “forçar a barra” da realidade para caber nela o que eu quero ou que penso que seja melhor pra mim. Frequentemente, insisto no que desejo que a vida seja e não no que ela já está sendo. Brigo com ela. Faço malcriação. Não aceito. Não me conformo. Por que comigo? Por que assim? Entristeço-me. Embraveço-me. Faço bico. Cruzo os braços. Viro pedra. Daí, obstinada, teimo ainda mais no que já teimava. Ao contrário do rio, que reage às pedras em seu caminho com malemolência, flexibilidade, aceitação e leveza, eu reajo com mais dureza. “Dou murro em ponta de faca”. Imagine a cena assombrosa (ou pule essa parte) realizando a expressão citada: sangue escorrendo da mão perfurada pela ponta da faca, que você continua esmurrando, mesmo causando você mesmo um sofrimento pra você. Controlar, forçar, esforçar, torcer, esmurrar. A linguagem não esconde o tanto de medo que sentimos ao percebermos nossas impotências diante do curso misterioso da vida, que nem sempre obedece aos nossos quereres e saberes. Defensivos, fechamos os poros. Represamos. Mas, o rio continua a correr livre por entre nossas pedras, apesar da nossa birra. Como poetou Manoel de Barros, “Liberdade caça jeito”.

Noutro dia, minha aluna Lia, com seus 85 anos, me ensinava algo assim, em tom shakespeareano: “Ô Eliane, há mais mistério nesta vida do que alcança nosso entendimento raso. Tudo é mistério. A gente não sabe porque nasce, a gente não sabe porque morre, a gente não sabe por que as coisas acontecem. Elas só acontecem. Nem tudo podemos entender. Nem tudo podemos evitar. Nem tudo que queremos, teremos. Somos muito pequenos diante disso. O melhor a fazer é nos entregar, confiar, soltar”. Ela, uma yoguini que ama Jesus e frequenta a igreja católica, arrematou: “Faça sempre a Vontade de Deus, Eliane, que tudo dará certo”. Vontade de Deus é outra forma de dizer “segue o fluxo, minha filha”.

Não, não fluo sempre. Mas tenho treinado bastante com a ajuda de algumas tradições. Além do yoga, a arte é minha mestra nas malemolências. Na escrita, se insisto numa ideia para escrever um texto, se insisto numa frase, se insisto numa palavra, o texto estanca. Aprendi: já não mais insisto. Abandono. Desisto. Jogo fora. Deixo que ele se manifeste como quiser, usando-me como seu lápis. Só fazendo assim, ele me vem claro, forte, sincero. No piano, há músicas que não querem ser tocadas naquele determinado dia. Respeito. Passo para outras. Essas estão soltas. O som fica bonito. Um vizinho meu, idade avançada e ouvinte atento do meu piano, disse-me carinhosamente que gosta quando as notas dão “aquela corridinha”. Ele deve estar se referindo ao dedilhado de alguma escala que lhe soa fluente e, por isso, o comove. Agora, na dança (eis uma revelação): entrei para a dança de salão. Já dancei outros tipos de dança (jongo, maracatu, afro, jazz, samba), mas essa é diferente: tem par. E, para se dançar com um par, é necessário entrega. Deixar-se ir. Você sente o fluxo da dança no corpo do outro junto ao seu. Quando a conexão com o outro se estabelece parece que ambos levitam. Bem, um dos meus pares de forró, que dança a mais tempo que eu, já me disse que estou craque. Fiquei envaidecida. Sinto que estou dando passos no aprendizado da fluidez. "Pedra dura em água mole tanto bate até que flui".

Corra, rio meu! Seja livre! Seja leve! Seja solto! Seja sábio! Seja água! Seja rio!

“O mestre faz seu trabalho
e depois pára.
Ele entende que o Universo
é eternamente incontrolável
e que tentar dominar os eventos
vai contra a correnteza do Tao.” (Tao Te Ching, cap 30)

“Por isso, o sábio age sem nada fazer
e ensina sem nada dizer.
As coisas surgem e Ele permite que venham.
As coisas desparecem e Ele as deixa ir.
Ele tem, mas não possui
e age sem expectativas.
Quando seu trabalho está feito,
Ele o esquece.
E por isso ele dura para sempre.” (Tao Te Ching, cap 2)

“O Sábio observa o mundo
mas confia na sua visão interna.
Ele permite que as coisas venham e vão.
Seu coração está aberto como o céu.” (Tao Te Ching, cap 12)

“Você pode lidar com os assuntos mais vitais
deixando os eventos seguirem seu curso?” (Tao Te Ching, Cap 10)

“Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte". (2 Corintios, 12)

P.S. "Se ela estava sozinha então quem tirou a foto?", você pergunta. Não, não foi o curupira. :) A mana Rosane esteve no Pocinho comigo também.

Publicado em 24/01/17 - https://www.facebook.com/Uddiyana-Espa%C3%A7o-de-Yoga-1459086691012200/

PERDÃO - Texto da profa. Eliane Oliveira

13/02/2017

Eu erro.

Devo ter errado com você.

Suponho que o tenha magoado com minha arrogância, teimosia e orgulho.

Suponho que não o tenha ouvido, projetando minha impaciência e indiferença.

Suponho que não o tenha sentido, desatenta às suas expressões.

Suponho que eu tenha sido incoerente nos próprios princípios que anuncio.

Sou capaz de me autoavaliar,

mas não consigo saber ao certo,

por isso peço: fale pra mim!

Preciso que me fale.

Só entendo se você desenhar.

Não sou boa de ler pensamentos.

Minha intuição anda nebulosa.

Whatsapp e papos virtuais não adiantam.

Se eu lhe causei algum sofrimento, fale-me?

Olhe-me nos olhos e me fale.

Chame-me num canto e me fale.

Fale-me para que eu possa repensar nas coisas que fiz ou deixei de fazer.

Fale-me para que eu possa pedir o seu perdão se o ofendi.

Fale-me para que eu possa me perdoar se não consegui ser a melhor pessoa que esperava ser.

Fale-me para que eu possa perdoar você, que também erra.

Somos provisórios.

Somos humanos.

Fale-me para que eu possa lhe falar que sinto amor por você, mesmo sendo incompleta.

Fale-me para que a magia do entendimento e do diálogo aconteça.

Quem sabe assim eu aprendo com você sobre uma parte de mim que ainda não enxergo?

Estou em fase de crescimento.

E isso ainda vai durar pelo menos a vida toda.

Não sei as respostas.

Sou só imperfeita.

Tenho mais dúvidas.

No meu coração, de carne e espírito, moram feridas que estão em processo de cura.

Na alma, há memórias que endurecem meus olhos.

Não é assim também com você?

Reconhece-se em mim?

Um pouco ao menos?

Perdoa-me pois todos erramos.

FUNDURAS EM MIM

Texto da Profa. Eliane Oliveira - 01/11/2017

Fundo. O outro lado do raso. Olhava para a água de lá. Sete ou oito anos. Pés na beirada da borda. Densidade azul hipnótica. Chamava-me para dentro. Era mais forte que eu. Tinha que pular. Esticava os braços acima da cabeça, unia as mãos em prece e, como uma seta, embicava o corpo para a água. Pulava. De cabeça. Ai, que coisa boa! Piscina do clube. Eu não sabia (oficialmente) nadar. Quer dizer, não aprendi em escola. Aprendi observando meus irmãos mais velhos, sincronizando braçadas alternadas com pernadas frenéticas. Copiava os movimentos deles. Nadava. Havia a piscininha das crianças (bobinha para meus desejos edípicos de piscina) e a piscina dos adultos, semi-olímpica, com arraias, fundo com uns dez metros de profundidade (Aí, sim). Queria essa. Na borda lateral do fundo, um trampolim alto. Bem alto. Dez metros, talvez. Não, não pulava do trampolim. Mas pulava dos blocos de concreto sobre a borda da piscina, que elevava, há mais um metro do chão, o salto para o fundo. Deus, cadê os pais dessa criança? Meu pai me monitorava. Da borda da piscina, pertinho de mim, ficava me acompanhando em meu nado. Observava atento. Caso precisasse, saltaria para me acudir. Mas nunca me negou, em meu impulso, de ir lá, do outro lado do raso, pular no fundo. Sozinha. Pelo contrário, no fundo, ele vibrava com minha vontade e meu atrevimento: “Vá lá, minha filha! Vá (pro)fundo!”. Do fundo pro raso. Do raso pro fundo. Dezenas de vezes. Era uma passagem que só eu podia fazer. Sob o encorajamento, cumplicidade e cuidados do meu pai.

Na praia (ó Mar, doce e amado Mar, poderia falar somente de você hoje, já que és, pra mim, um grande mestre), era semelhante. Sem graça tomar banho de baldinho na beirinha, antes do quebra-mar. Eu queria era ultrapassar a linha das ondas espumantes, e alcançar lá onde o mar é caudaloso, grande, escuro, onde não se sente a areia sob os pés, nem se estremece com impacto das ondas. As ondas nervosas quebram lá na frente. Aqui, tudo é calmo. Aqui, o som é silencioso. Aqui, não há perigo. Oito ou nove anos. Minha mãe, ficava lá na beira da praia, fazendo, com o braço, um movimento gigante de “vem pra cá”, “aí já está bom”, “não vão tão longe”. Eu não estava sozinha. Com meu pai e irmãos. “Me leva lá pro fundo?” - pedia. Levavam-me, mas só quando o mar podia me receber, pequenina, sem muitos tropeços e correntezas. O Rinaldo, meu irmão mais velho depois de mim, com aquelas suas famosas brincadeiras em tom meio macabro, ia me carregando pelos braços para o fundo, enquanto dizia: “Você confia em mim? Vou te levar pras profundezaaasss”. Guiavam-me: “Quando vier a onda, você fura”. Ai, que coisa boa! A onda passava levinha sobre mim, suave, sem raiva, e o mar grande me abraçava de novo. Pezinhos batendo sob a água para o corpo flutuar no mar, no fundo. A essa altura, o mar era Oceano. Um lugar muito longe da terra. Um céu do mar. Um lugar fora de qualquer lugar. De pura inutilidade. Sagrado. Segredo que se aprende com quem já experimentou, aprendeu e agora ensina, por nenhuma outra razão, senão a vontade de ver você tão feliz em experimentar essa experiência como ela própria foi feliz, quando a experimentou: “vá por aqui pra ver uma coisa”, “olhe só isso”, “sentiu?”, “tente deste jeito”. Mestres. Mas, como o mar é beira e fundo, o aprendizado apenas se completa quando se retorna para a beira: “Quando vier a onda, vá com ela”. Projetavam-me para eu pegar jacaré sobre a onda, e, então, voltar à praia.

Vinte litros num balde de água. No quintal da casa da Água Santa, um bairro do subúrbio do Rio. Vivi ali por vinte anos. Minha mãe enchia um balde de água, daqueles de vinte litros. O balde era quase do meu tamaninho. Quatro, cinco ou seis anos. Eu, meus irmãos e irmã juntos brincando no quintal, enquanto ela aguava o jardim. O que eu fazia? Metia a cabeça dentro do balde calmamente e ficava com a cabeça afundada, ouvindo o nada, por alguns segundos. Ai, que coisa boa (Já fez essa experiência? Ouve-se realmente o nada. Já ouviu o nada?)! Depois, eu retirava a cabeça, jogando o cabelo tipo “boi lambeu”, embebido de água, para fora do balde, a qual fazia um percurso extenso, molhando tudo a volta (tudo bem, porque tudo estava molhado mesmo!). Liberdade se encontra num balde de vinte litros. Mãe dizia que daria dor no ouvido. Vigiava-me para que as minhas experiências subaquáticas fossem só algumas, mas nunca me impediu que eu me atirasse nelas. Pelo contrário, eu ouvia de seus olhos um entusiasmo e um incentivo: “Vá lá, minha filha, ouça o fundo! Agora, volte. Fique aqui agora, à tona, no colinho da mamãe e me diga o que trouxe para nós lá debaixo d’água, depois do seu mergulho”.

Ou então era na caixa d’água de amianto, que foi comprada para ser caixa d’água, mas não foi usada como caixa d’água. 2.000 litros d’água. Profundidade que me cabia sentada e/ou com as pernas esticadas na horizontal. Virou piscina. Ali, durei mais tempo. Por anos, enchíamos “a caixa” para “tomar banho de caixa”. Eu ia me afundar “na caixa”, nas manhãs, tardes ou noites quentes de verão. Minha mãe era quem vinha verificar, de vez em quando, se eu ainda estava viva, de tão quieta. E depois me deixava. Quieta. Com o corpo todo afundado, só a cabeça pra fora. Como um submarino. A água não se mexia. Ouvindo o som dos pássaros nas árvores do quintal quando era dia; olhando as estrelas do céu, quando era noite. Experiências de meditação. Imersão. Útero. Inconsciente. Calmo. Meia hora, uma hora. Tempo sem tempo. Eternidade. Até emergir, ficar novamente de pé. E, embebida das funduras em mim, agora voltar para funduras fora de mim, no convívio da casa e da família.

A vida imita a vida. Uma vez ido aos fundos, você não poderá nunca mais não ir a eles (ou, pelo menos, ignorá-los). As consequências são irreversíveis. Possivelmente, você se interessará por funduras de todas as dimensões, para vivê-las à tona (Se não for para trazê-las à tona e vivê-las, o fundo será tão raso quanto o raso é para o raso. Fundo e raso são o mesmo todo: um, só é um com o outro). Estudo. Pesquisa. As entranhas dos conhecimentos. As essências. As raízes. Poesia. A alma humana. Natureza. Oração. Silêncio. Música, antropologia, yoga. Antigas tradições filosóficas, espiritualistas e religiosas. Meditação. Deus. Entrega. Confiança. No amor, apaixonar-se-á perdidamente, mergulhando de cabeça em histórias profundas e duradouras. Amigos serão como irmãos e irmãos como amigos. Pai e mãe, ouro de mina. Intuições, transmissão de pensamento, sincronicidade, premonição acontecerão frequentemente, pois serão naturais e não sobrenaturais. Sua natureza estará conectada ao Mistério que mora no profundo. O mundo, a sociedade, as culturas e cada pessoa terão a mesma importância pra você que você tem pra você, porque você descobrirá que você e o outro são interdependentes. E que é preciso cuidar (curar) da alma deles como você deve cuidar (curar) da sua. Tudo está enredado.

Você pagará mico. O mico não é muito aceito nas instâncias do raso, mas nos fundos, o mico é uma coisa muito legal. Uma ponte para o Samadhi (iluminação). Eu, por exemplo, sou uma grande pagadora de micos. Especialmente para manifestar amor, de qualquer tipo (fraternal, filial ou “namoral” - não encontrei outro adjetivo). Não fique com vergonha alheia de mim nem tenha medo de mim achando que eu sou maluca, por exemplo, se eu manifestar meus sentimentos, ideias, pensamentos a você, às vezes sobre você, de um jeito tão claro, entusiasmado e direto, que você, enrubescendo-se, vai querer que o chão se abra para enfiar a cabeça, ou atravessar a rua, fingindo que não me conhece. Será tão visceral e impulsivo que, às vezes, você não saberá o que fazer objetivamente com a emoção que lhe causou. Nessa hora, não faça nada objetivamente. Respire. Receba e aceite. Se for possível, retribua. Se não for possível, disfarce e vá ali tomar uma água.

Você também poderá deixar as pessoas preocupadas com você, por causa da sua intensidade. Comigo, já houve quem ficasse em aflição, quando me viu chorando aos soluços após ouvir Vandeli, assistir Amelie Poulain ou ler Rubem Alves. A pessoa ficou tão nervosa em me ver “entrar pra dentro” que precisei tranquilizá-la: “Eu só estou chorando. Deixa eu chorar. Calma!”. Em outras palavras: “Não pense que me afogarei no caminho até o fundo. Dá-me espaço para me jogar nesse Oceano. Permita-me entrar para ver Deus. Vou ali e volto. E, quando voltar, estarei um pouco mais aqui e agora, com você e com o mundo. Quando, então, poderei ver Deus também na superfície”.

 

“Entra no silêncio
longe dos outros
e ouve as palavras que se dirão
depois de um longa espera.
Terias coragem de exibir tua nudez frente aos estranhos?
Eles irão rir.
como, então, poderias orar na sua frente?
Oração, nudez completa,
palavra que sobe do fundo escuro e revela.

 

Entra no silêncio
longe das muitas palavras
e escuta uma única Palavra
que irá subir do fundo do mar.
Uma única Palavra é mais poderoso que muitas:
pureza de coração é desejar uma só coisa.
Uma única Palavra:
aquela que dirias se fosse a última a ser dita
Basta ouvir uma vez e, então,
o silêncio.

(Rubem Alves, In: Pai Nosso, Edições Paulinas, 1987)

Texto publicado em: https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=1943942855859912&id=1459086691012200

O DIA DO FIM DO MUNDO

por Eliane Oliveira - 23/09/17

Disseram que seria hoje. Que o mundo acabaria. Não acabou. Pelo menos até agora, 16h45, quando começo a escrever esse texto. Pode ser que ainda aconteça mais tarde. Se bem que, se fosse hoje, os ventos estariam mais fortes. Amanheceu meio esquisito, nublado, cinzento. Mas, depois o sol abriu. Não deve ser hoje. Os astrólogos anunciaram o alinhamento entre três planetas e nove estrelas. Fenômeno raro no céu que pode ser um sinal do advento de algo raro. A volta de Cristo, o Apocalipse, o tempo da eleição dos justos, ou, para os mais reservados, a abertura de algum portal espiritual que nos dará acesso a um novo tempo: o tempo da luz e o fim da escuridão. Opa, é bom falar em luz! Estamos precisando. Ativa a esperança. Dá vontade de insistir na vida, apesar dos pesares.

Por via das dúvidas, aproveitando que deu tempo de acordar de manhã cedo antes de acabar o mundo, sentei pra meditar, como faço todos os dias. O assunto me trouxe a vontade de rever a vida mais radicalmente do que já faço sempre. Na hipótese do final de tudo hoje, como está minha vida? Como estão meus apegos? Porque nada que tenho materialmente (afetos, amigos, família, casa, trabalho, corpo, dinheiro) importa tanto assim se tudo acaba. Qual osso eu ainda não largo? Gostei da ideia do portal que se abre para um novo tempo. É pedagógico imaginar uma passagem de hoje para um outro dia que será todo outro, mundo de luz em que finalmente estarei liberta da cegueira da ignorância, que me traz medo, culpa, intolerância, egoísmo, impaciência, fantasia, apego. Pois bem. "Chegou esse dia", eu mesma me disse a mim com olhos fechados em meditação. Chegou o dia do "Chega!". Do "Basta". Do limite. Como um ponto final saturnino. Dia em que eu atravesso o portal da fantasia para o da realidade e aceito a vida como ela é, pois o que é, é o que deve ser. Se não fosse, não seria. Eu goste ou não goste. Sem espernear. Sem fazer malcriação. Calma-mente. Recebo o "irmão limite", como diria São Francisco de Assis, limite que diz "adeus!", considerando, obviamente, que "nunca mais" não existe, pois o que vai, sempre fica, porque a vida é uma mistura de experiências, memórias, histórias, vivências absorvidas numa síntese. Eu não sou a mesma após me encontrar com você. Nem você é o mesmo após se encontrar comigo. Somos "euvocê", "vocêeu". Ficamos juntos quando vamos, não nos separamos. Entretanto, vamos, porque a vida é uma partida desde que começa. Ela vai. Ela segue. É um ir permanente, cheio de impermanências. Podemos até querer controlar esse curso, mas não conseguiremos. É natureza. A ordem que nos rege.

O caminho é pleno de pequenas mortes, pequenos finais, pequenos apocalipses. O caminho é pleno de nascimentos, portais para outras e novas vidas na nossa vida.

Sei que não fiquei nervosa com a possibilidade de tudo acabar. Moro perto do Aterro do Flamengo. Pensei: se houver um tsunami, nem vai dar tempo de ver a onda. Quando vir, já fui. Quer dizer, " flui ".

"Há um dito tibetano que diz que a pessoa que não se lembra da impermanência ou da inevitabilidade de sua morte é como uma rainha. Nos tempos antigos, no interior das cortes reais, a rainha tinha de manter uma imagem de importância e de autoconfiança, e cumpria-lhe estar sempre muito preocupada com a defesa da própria reputação e autoimagem. Mas no seu coração ela trazia todos os tipos de desejos e medos - do prazer ou do desprazer do rei, do poder e da perda da sua posição -, de modo que sua atitude era essencialmente de simulação, com a finalidade de proteger-se. Da mesma forma, podemos dedicar nossas vidas a um caminho espiritual num sentido extremo, embora possamos ter ainda, ocultos, inúmeros desejos - de poder, de posição, de louvor. Não nos lembramos da impermanência nem da certeza da morte e, assim, não podemos nos proteger contra os nossos desejos. Mas quando compreendemos a impermanência de nossas vidas, podemos nos adaptar mais prontamente a todas a situações e não nos tornamos agarrados a elas, nem somos arrastados por elas". (Tarthang Tulku, In; Gestos de equilíbrio, Pensamento: São Paulo, 1977)