Buscar
  • Eliane Oliveira

Por profa. Eliane Oliveira


Escreva-me uma carta.

Gosto de textos feitos com palavra.

Pode ser longo.

Pode ser curto.

Mas escreva-me palavras.

Comece com data no cabeçalho e depois com o meu nome na saudação.

Algo do tipo: Rio, data, Oi Eliane.

Escreva-me um bilhete.

Prefira papel e caneta.

Email serve mais ou menos. Não haverá nada mais visceral que uma folha escrita com suas letras. Suas.

Papel seu que tocarei e terei meu depois de ter sido tocado por você que escreveu.

Papel que carrega o suor das suas mãos, a tinta da sua caneta, a força da sua intenção, o tempo escolhido do seu dia.

Se o assunto for funcional, tudo bem o virtual.

É mais prático. Pá-pum.

Se o assunto for amizade ou amor, deve ser recebido, aberto, lido, comido, deglutido, ruminado, silenciado, guardado, sentido.

Quanto mais viscoso, quanto mais textura mais presente será sua presença.

É preciso que haja “face” (rosto, pele, olhos, cheiro) e não feice (de facebook).

Coloque na caixa do meu correio, use o serviço postal ou deixe debaixo da minha porta.

Descobrirei o desenho da sua letra e já conhecerei você ao conhecê-la.

Pode também me telefonar.

Gosto de ouvir a voz de quem fala.

Na hora, os dois na linha, um aqui, outro lá.

Gravações da fala parecem telefonemas, só que não são.

Gravações podem ser cortadas, desfeitas, editadas.

Em telefonemas, presenciarei sua reação direta, espontânea, reticente, sem tantos filtros.

Se preferir, estou em casa. Toque a campainha.

Quando você chegar, poderei tê-lo de perto, corporal.

Conversaremos à mesa do café com bolo ou na sala quase sempre meio bagunçada do dia-a-dia.

Se me vir na rua, no corredor, na portaria, na praça, no supermercado, se quiser falar comigo sobre algo sobre nós, deve falar a mim diretamente, reservadamente, e não na presença de outros, senão eu e você.

Que ninguém mais, a não ser nós dois, esteja entre nós para amenizar a tensão, o frio na barriga, a insegurança, o brilho nos olhos, a humanidade desse “com-tato”.

Assim, sim: a vida será real.

E quando finalmente nos tatearmos um ao outro, poderemos rir juntos.


Escute a narração do poema no canal do Youtube:

Eliane Oliveira Medita

https://youtu.be/IedUt18K1q8

  • Eliane Oliveira

Por Eliane Oliveira - 03/04/2021


No escuro, um meio-ponto de luz é a coisa mais bonita. A coisa é bonita por causa da escuridão pontuada pela luz. Se é tudo só luz, a luz é tudo o que há. Fica monossilábico e não dialógico. Mas, se há escuridão, qualquer ponto de luz é a coisa mais bonita. A escuridão fica calma, a luz fica amena. Eu me atraio por essa beleza. E vou busca-la, pari-la, dar-lhe à luz. Parece que imito as memórias mais antigas da minha alma, as da minha história e as da história do mundo. Arquétipos. Tipos ancestrais. Marcas atemporais. Como são os vagalumes. Não os vejo mais. Ficaram raros. Mas, quando criança, eu os via. A encarnação do mistério da luz piscando na escuridão. Manifestação da eterna delicadeza do acender e do apagar de todas as coisas. Vagalumes, velas, estrelas, rituais religiosos, fogueiras, lamparinas. Brilhos. Lusco-fusco. Crepúsculo. Alvorecer. O sagrado encontro entre a luz e a treva, e tudo o que isso simbolicamente representa, e tudo o que isso nos impõe na realidade do mundo. A vida e a morte. O começo e o fim cantado em dueto. Beleza é a palavra.



Eu crio luminárias, e, até há pouco, não entendia por que cargas d’água isso foi acontecer comigo. Foi uma possessão, como são as artes na minha vida. Um destino. O copo de água quando estou com sede. O arroz com feijão quando estou com fome. Necessidade fisiológica. Necessidade ontológica. Necessidade que pertence à alma. Mais forte do que eu mesma. Sabia que era da conta do inconsciente, mas não me estava claro como isso me tomava. Despertei pelo interesse de criar luminárias quando, um dia, em Santa Teresa, na casa do Alan, conheci uma artesanal que nunca mais parei de querê-la. Hipnose profunda. Comprei tinta, acetato, fio e outros materiais, mas levei alguns anos ruminando como projetaria uma daquelas. Comigo é bem assim. Crio bovinamente. E, assim, passado um tempo de decantação, desandei a construí-las. Não foi uma. Foram umas 10 de uma só vez. Sem nenhum objetivo nem meta nem motivo algum. Apenas uma profunda necessidade de vê-las acessas junto da escuridão. Era uma reexperimentação da "vagalumessência", que, na minha história, tomou forma de vida e morte em muitas passagens desde cedo. Podia atualizá-las, ritualizá-las e apascentá-las através da beleza. Beleza é a palavra. No escuro, um meio-ponto de luz é a coisa mais bonita. Tipo samba que, harmonizando tristeza e alegria numa espécie de divã popular, batuca, animado, um refrão cheio de lalaiá. Juntar luz às trevas quando a luz parece finda era poético, curativo, religioso e nutritivo. Templo. Oração. Contemplação. Acolhimento. Noutro dia, uma aluna, chegando ao Uddiyana à noite para retornar sua prática presencial após um tempo afastada, me disse emocionada: "Ao ver essas luzes, já me senti abraçada".


Páscoa, para quem não é cristão, pode ser vista como o desejo eterno da alma pela "vagalumessencia". Não é só a luz. Não é só a escuridão. Páscoa significa "passagem". É o meio do caminho, é a ponte, a travessia, onde a escuridão da morte é pontuada pela luz da vida, na simbologia da ressurreição de Jesus Cristo, lembrando-nos da experiência humana, que é sempre como a aurora do dia nascendo enquanto a noite ainda persiste. Boa Páscoa para tod@s!




Semana Santa, sábado de aleluia, abril/2021


Ouça a Música Paixão e fé de Milton Nascimento, Tavinho Moura e Fernando Brant

Voz profa. Eliane Oliveira e violão Rinaldo Oliveira.

Acesse: https://fb.watch/4CNs53T7qG/ ou https://youtu.be/LLOX9yQryrc


  • Eliane Oliveira

Texto da profa. Eliane Oliveira - 11/04/2020


orte. Não é fácil falar em morte. É um tabu, apesar de ela ser a maior parte da vida. Começamos a morrer quando nascemos. Desfazemos anos conforme fazemos aniversários. Cada dia que passa, nossa matéria morre um pouco enquanto vive. Mesmo quando a face lisa do bebê insiste em desmentir essa verdade, essa é a verdade. A morte da matéria, de qualquer matéria, é implacável. Não é possível se maquiar. Não é possível escondê-la. Dela, não é possível se esconder. Qualquer botox, ao invés de preencher o velho com juventude, só ressalta aos olhos de quem o vê que ali houve uma queda. A queda é bonita. A queda nos faz bonitos. A queda é parte da vida. É uma passagem da densidade para a sutileza. Mas, não nos convencemos disso, e, na tentativa de controlá-la (a queda, a velhice e a morte), nós nos plastificamos. A mente de quem se plastifica confia no que é falso e acredita que é possível frear o curso do rio cheio de quedas e impermanências, que o fazem rio. Pegamos um punhado de areia fina nas mãos e a areia cai por entre nossos dedos. Temos algumas possibilidades. Podemos sentir a coceguinha que a areia faz ao deslizar das mãos enquanto vai embora. Ela vai embora, mas a coceguinha é extraordinária. A vida, na passagem da areia pelos dedos, se eternizou. Ao invés disso, podemos apertar mais firme a areia nas mãos enquanto ela desliza, querendo e crendo segurar seu insegurável deslizar. Apertaremos a areia nas mãos, temerosos da sua queda, não desfrutaremos a coceguinha que ela faz ao deslizar pelos dedos das mãos, e, ainda por cima, iremos perdê-la de qualquer jeito, pois deslizar é a sua natureza de areia fina. Podemos ser gratos às cinzas que geram a fênix ou podemos jogá-las fora no lixo como lixo, e não teremos a oportunidade da fênix, que renasce. A perda pode ou não ser uma experiência feia e ruim. Depende. Depende da nossa escolha.

Creio que estamos vivendo coletivamente uma experiência de morte e de luto. Através da morte da matéria (da derrubada de corpos e de instituições), visita-nos uma experiência de morte que nos alcança em dimensões internas mais profundas. São tempos coronarianos. Tempos de corona. Tempos de assuntos relativos ao coração. Tempos da queda das coroas. Os nomes corona (o vírus) e coronário (artérias que nutrem com sangue o coração) tem a mesma raiz etimológica: coroa. Não é interessante? Essa relação - nome e cenário - me conectam imediatamente à simbologia gravada na carta do tarot chamada “A Torre”. Consiste numa torre muito alta e sem portas, em cujo topo está assentada uma suntuosa coroa. Seus moradores coroaram seu castelo. Seu castelo era a sua verdade. Seu castelo era sua riqueza. Seu castelo era seu poder. Seu castelo era sua vida. Não abriam mão dele. Mas um dia, inesperadamente, um raio caiu sobre a torre, derrubou a coroa e jogou seus moradores para fora do castelo. Na marra, porque, por eles, de tão ensimesmados, continuariam castelocentrados. Foi morte. Foi queda. Mas, justamente o raio que trouxe a morte ao seu castelo também libertou seus moradores, dando-lhes a chance de reverem o que na vida merece coroamento. A tal possibilidade de se tornar fênix, desfrutando da coceguinha da areia fina por entre os dedos.

Pois, em tempos de corona, as coroas dos castelos caem para dar lugar ao coroamento do coração. Somos levados para um retiro. Isolamento. E, ainda: somos chamados a nos retirar não somente para nos proteger, mas como a única forma de proteger a humanidade, num ato de compaixão (sentir a dor do outro) pela sobrevivência do planeta. O planeta nos convoca ao recolhimento, à meditação. Isso é claro e evidente. Para fazer essa passagem da densidade para a sutileza (Páscoa), é preciso abrir mão de si em honra à existência do outro.


O planeta faz seu balanço com severidade e nos questiona o que é a normalidade. Ele faz isso em alto tom. Alguns, apegados às pedras dos seus castelos, reagirão como a fase de negação num luto. Negarão a morte havida. E, segurando firme entre os dedos a poeira fina do seu tombamento, aguardarão a volta a um ontem já ido. Outros, porém, fazendo coro com o chamado do planeta, questionarão a normalidade, e, mais do que nunca, irão se dispor à recriação de si, aqui e agora. Há nevoeiro? Sim, há nevoeiro. Quem pensa que um dia enxergou ou enxergará tudo claro, se enganou. Não controlamos nada. Enxergamos bem pouco. Mas, inspirando-nos no que dizem os mestres, durante o nevoeiro, podemos levar o barco devagar.

Aprendi com Jung, um desses mestres, que, na hora das crises coletivas, é bom olhar para os símbolos e para os mitos. São sabedoria eterna, universal, habitantes do inconsciente coletivo. Eles não nos ensinam na teoria. Eles agem em nós na prática. Nós os atuamos. Posso, por exemplo, nos sentir todos dentro do mito judaico de Jonas. Conta-se que havia uma cidade chamada Nínive onde guerreiros que a dominavam matavam cruelmente os seus moradores. Deus, compadecido, encarregou um homem justo chamado Jonas de ir até lá para enviar um recado aos guerreiros: “Dou-lhes quarenta dias para se arrependerem, se não, lançarei sobre vocês minha fúria”. Jonas sabia que essa era uma tarefa muito difícil. Ficou apavorado de levar aos malfeitores a mensagem de Deus. Então, fugiu. Fugiu em um barco para uma outra cidade que ficava em direção oposta à Nínive. Entretanto, durante a viagem, acontece uma enorme tempestade cujas ondas gigantescas ameaçavam destruir o barco e matar todos os embarcados. A tempestade só cessou quando Jonas é lançado ao mar. Uma baleia engole Jonas e ele fica vivo no estômago dela por três dias e três noites. Isolado e preso na barriga da baleia, Jonas cede ao profundo silêncio da alma e entra em meditação. Ali, ele se ilumina. Compreendendo a importância da sua responsabilidade para com seu tempo e para com aquele povo, é vomitado pela baleia numa praia, para seguir, enfim, rumo à sua missão. O chamado de Deus é o chamado da sua consciência. Era preciso abrir mão de si, das suas verdades, dos seus medos. Morrer. Mas, Jonas negou e fugiu da sua consciência. Até que, após um retiro forçado ao ser engolido por um monstro do mar, o enfrentamento de uma sombra presa nos calabouços da sua alma, despertou. Jonas estava morto na normalidade quando julgava estar vivo. Meditou na barriga da baleia em processo de digestão e de gestação de si mesmo. Ressurgiu. Agora sim, vive.

Eis a nossa prova. É uma prova. Aproveitaremos a “barriga da baleia” como um templo para, humilde e honestamente, reavaliarmos as escolhas que tomamos como humanidade até aqui; aproveitaremos a "barriga da baleia" como um útero para nos gerar como humanos e sociedade justos, solidários e livres, integralmente, em dimensões econômicas, políticas, culturais, emocionais, corporais, espirituais; fluiremos com a vida desde agora para um tempo em que o coração do planeta será coroado; ou insistiremos em defender as coroas de nossos castelos plastificados e caídos, mesmo que essa inconsciência nos leve para o nosso fim como espécie?

Depende. Depende da nossa escolha.

Eu, seguirei com o coração. Rumo à vida, apesar da morte.

Boa Páscoa!


Uma música para inspirar sua vida:

https://youtu.be/pXrLxjkSP5U